9 de novembro de 2011

O dispositivo-Medusa e o duplo exterior de Narciso

Narciso, Caravaggio, 1594.
Óleo sobre tela
Jogo de olhares, a fotografia encontra em Narciso e Medusa os seus mitos de origem, como bem sugere Philippe Dubois.  
Armada em riste como um dedo indicador, a câmera fotográfica desafia e lança, num disparo, o olhar petrificante da Medusa, que transforma em objeto o sujeito, e congela na representação a expressão. Eis agora, no retrato fotográfico, o sujeito feito estátua, vazio de si como uma sombra ou um reflexo.
Com o dispositivo-Medusa, o desejo narcísico de representação consuma-se na afirmação de um duplo exterior. No mito de Narciso, o seu reflexo o duplica e torna-se uma “imagem de si”, que é também a imagem do corpo, “lugar de investimento da vaidade do sujeito e de investimentos emocionais”[1]Enquanto o reflexo de Narciso remete a um duplo exterior do sujeito, o olhar de Medusa transforma o sujeito em objeto de representação, tornando presente a sua ausência, agora como estátua.
Quantas vezes não nos fazemos estátuas, colocando-nos espontaneamente diante deste dispositivo-Medusa para construir o nosso duplo exterior? Já desde o daguerreótipo, o retrato é o gênero de fotografia mais produzido. Aliás, desde as cavernas de Lascaux o homem demonstra esta necessidade e desejo de representação, e vem aprimorando o seu jogo de sombras, reflexos e olhares.
E é por ilustrar tão bem este jogo, que não me parecia ser possível encontrar melhor metáfora para falar sobre fotografia em geral, mas particularmente sobre retrato fotográfico e  sobre (auto)representações. Por isso, o blogue chama-se Narcisos e Medusas, mas por aqui também estarão outros mitos, referências, personagens e narrativas reais e ficcionais.  
Medusa, Caravaggio, 1596.
Pintura na madeira


[1] Medeiros, Margarida (2000) Fotografia e Narcisismo. Lisboa: Assírio & Alvim.
Dubois, Philippe (1993) O ato fotográfico e outros ensaios. Campinas, São Paulo: Papirus.

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