16 de abril de 2012

levitar: entre a leveza e o peso




A divisão em pares contrários que Parménides forja do mundo, IV séculos a.C, parece estar na origem do maniqueísmo e dos dualismos que dominam, no geral e em boa medida, o nosso modo de pensar e medir as coisas. E, por consequência, o nosso modo de ser e estar no mundo.
Seguindo a lógica do pensamento de Parménides, um dos pólos de um par « é » e o outro « não é », estabelecendo uma oposição entre o positivo que « é » e o negativo que « não é » e que só existe enquanto ausência do ser. Ou seja, o negativo é a ausência do positivo. A escuridão é a ausência da luz. A luz é o positivo, a escuridão é o negativo.
Não quero discutir propriamente a filosofia de Parménides. Fiz tal referência porque este pensamento é apresentado no livro “A Insustentável Leveza do Ser”, de Milan Kundera, e esta leitura me inquietou a pensar mais sobre o par « leveza e peso ».
Para Parménides, a leveza é positiva e o peso é negativo, mas este par funda um paradoxo desconcertante. Se o peso, ao esvaziar-se, torna-se positivo, a leveza, quando transforma-se em ausência, torna-se pesada. Ou seja, a passagem do peso à leveza é a transformação do negativo em positivo. 
Qual é o paradoxo? A questão aqui, para mim, é que passamos com mais frequência da leveza para o peso, ou do positivo para o negativo, do que do peso para leveza, porque esse parece ser o caminho que nos cabe, como se tivéssemos feito uma inversão dos pólos. Nascemos leves, mas o tal « es muss sein » da vida, ou o « tem de ser » sobre o qual nos fala Kundera, não nos deixa flutuar.
Quando falamos de peso, nos vem à mente um conceito que abarca o que é sólido, duro, denso, racional, rígido, profundo, difícil, sério. A leveza, levianamente, pode sugerir o que é fluido, brando, vago, fácil, superficial, irresponsável, simples, insensato. O peso é contração. A leveza é distensão. Enquanto a gravidade do peso mantém os nossos pés no chão, a leveza nos leva ao aluamento.
Por isso, passar (o amor, o trabalho ou a vida) da leveza ao peso nos parece ser positivo. É  como elevar o status. Mas, um relacionamento sério não soa como algo pesado? Uma vida dura, não é pesada? Um sentimento profundo não parece nos puxar para o fundo de um abismo qualquer? E um pensamento denso, não pesa como a incompreensão? 
Seguir a via do negativo ao positivo é livrar-se do peso. Mas como bem nos mostra Kundera, o fluxo inverso é também recorrente. Do positivo para o negativo, do leve para o pesado.
A oposição « positivo-negativo » nos conduz à oposição « bom-mau ». Positivo é bom, negativo é mau. A leveza é boa, o peso é mau. Mas ao que somos arrastados na nossa vida cotidiana? Ao aluamento da leveza ou ao peso que finca os nossos pés no chão?
Ítalo Calvino, com o seu “Visconde Partido ao Meio” nos sugere que ser plenamente bom é uma condição humana tão insustentável e insuportável quanto ser plenamente mau.
Aqui, igualmente, não se trata de escolher entre o peso e a leveza, mas sim de enfrentar um embate contínuo que nos compele ao peso, para, em vez de afundar-se ou flutuar, levitar.





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