30 de janeiro de 2013

mãe e filhos


(...) O retrato mostra uma família que não é feliz. Os filhos têm um ar triste e interrogador. Eles contemplam-nos com um misto de reserva e de hesitação. São crianças encantadoras, mas estão tristes. Assim como a mãe, que parece mergulhada na sua tristeza (...). Há um sentimento profundo, mas não há sentimentalismo.

A descrição acima bem poderia referir-se a este retrato fotográfico da mãe com as filhas. Mas não é. É, na verdade, a descrição de um outro retrato de uma outra mãe com os seus filhos dada no livro de História da Pintura de Wendy Beckett. Trata-se do retrato de Deborah Kip, Mulher de Sir Balthasar Gerbier, e seus filhos, pintado por Peter Paul Rubens.  

Deborah Kip, Mulher de Sir Balthasar Gerbier, e seus filhos
 
Peter Paul Rubens | 1629- 1640.
 



27 de janeiro de 2013

álbum de família



Os álbuns de família são narrativas cronológicas e lineares da vida familiar. São artefactos da memória que nos levam a revisitar e recriar o passado com nostalgia. As fotografias dignas de serem guardadas  para a posteridade nos arquivos visuais da família são, no geral, aquelas que eternizam momentos de felicidade, encenados ou não. Por isso, os álbuns levam-nos a acreditar que a vida é bonita e comprida, como diz Anne, a personagem do filme Amour, ao folhear o álbum de fotos da sua família.

Amor, Michael Haneke, 2012





17 de janeiro de 2013

por uma lírica fotográfica | fotografar o silêncio



Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada, a minha aldeia estava morta.
Não se via ou ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas. 
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã. Ia o silêncio pela rua carregando um bêbado. Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.

Preparei minha máquina de novo.

Tinha um perfume de jasmim no beiral do sobrado.
Fotografei o perfume. Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo. Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa. Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre. Por fim eu enxerguei a nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakoviski -- seu criador.
Fotografei a nuvem de calça e o poeta. Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa mais justa para cobrir sua noiva.

A foto saiu legal.

Manoel de Barros (2000) Ensaios Fotográficos


crônicas fotográficas | flashback





Quando se deixou mirar por aqueles olhos, sentiu medo de que um dia eles não a vissem mais. O flash gelou-lhe a espinha. Percebeu, então, o que era o amor. 



***

Sobre as crônicas fotográficas
Às vezes, é comum eu me perder ao olhar alguns retratos fotográficos de anônimos. Fico imaginando o exato momento em que o fio do tempo fez-se um ponto e que a vida foi congelada e fixada na fotografia... Fico inventando as lembranças das histórias que eu não conheço. Sobre as crônicas fotográficas que aqui escrevo a partir dos retratos de ilustres desconhecidos, o que posso dizer é que só 10% é mentira, os resto é invenção - como  bem diria Manoel de Barros.  




12 de janeiro de 2013

o retrato da duquesa de cambridge

HRH The Duchess of Cambridge
By Paul Emsley (b.1947)
Oil on canvas, 2012
1152 x 965 (45 3/8 x 38)
NPG 6956 

Foi apresentado ontem à imprensa o retrato oficial de Kate Middleton, uma encomenda do National Portrait Gallery, de Londres. Embora tenha a aprovação real, o retrato pintado pelo artista escocês Paul Emsley não foi bem recebido pela crítica de arte, que diz, no geral, tratar-se de uma pintura medíocre, que não segue os cânones de um retrato, pois não enaltece a essência da retratada e nem a sua beleza.
Por definição, o retrato é a representação de uma pessoa segundo ela mesma, mas não deve se limitar ao visível, deve trazer a natureza íntima do sujeito, aquilo que o distingue, à superfície da imagem.


O retrato pintado por Emsly foi feito para deixar para posteridade a imagem oficial da Duquesa de Cambridge, respeitando a tradição pictórica de representação da realeza. Para a realização da pintura, o artista  teve a ajuda de retratos fotográficos que lhe serviram de modelo para copiar os traços e a expressão de Kate. Contudo, os críticos têm frequentemente comparado o retrato a uma "mera fotografia", um snapshot banal, acusando ainda o pintor de empreender um realismo fotográfico malsucedido.



“Seriously, as a concept, what is it? It’s like a giant Polaroid. Like she went into a photo booth and had that picture taken and blown up to a huge size, it would look more or less the same, wouldn’t it?” said Waldemar Januszczak, art critic for The Sunday Times.